Sergio Mendonça
Obrigado por aceitar esse convite e entrar comigo neste universo. Ele nasceu dos meus sonhos, e eu quis te dar a melhor experiência possível nessa viagem ao desconhecido.
Uma obra só continua viva enquanto existir gente disposta a lê-la e criticá-la. Espero que você se divirta. Boa viagem.
Sergio Mendonça
Thank you for accepting this invitation and stepping into this universe with me. It was born from my dreams, and I wanted to give you the best possible experience on this journey into the unknown.
A work only stays alive as long as there are people willing to read it and critique it. I hope you enjoy it. Have a good journey.
O corpo despencou do topo de uma das mega-torres.
A queda durou quinze segundos. Um mergulho silencioso através da névoa carmesim. O vento uivava nos ouvidos do homem, abafando o zumbido da cidade e trezentos anos de tédio.
Ele atingiu a Avenida Central com a força de um meteoro.
O som foi nauseante: uma explosão úmida de carne e osso contra o concreto. O impacto desenhou uma coroa de sangue escuro em um raio de três metros, manchando as botas dos pedestres.
Ninguém gritou.
Ninguém correu.
A multidão apenas parou. Formaram um círculo com a indiferença de quem observa uma máquina de venda automática enguiçada.
No centro da poça, a massa de carne começou a chiar.
Não era fritura. Era reconstrução. Um zumbido elétrico nasceu de dentro do próprio sangue, misturando o cheiro de cobre ao ozônio.
O Comandante Kael observava da calçada. Tragou a nicotina vaporizada do cigarro que não queimava. Não desviou o olhar. Já vira aquilo mil vezes.
Primeiro o crânio esmagado inflou. Fragmentos de osso foram puxados de volta por fios prateados. O cérebro, espalhado pelo chão, liquefez-se e foi reabsorvido em segundos.
Depois vieram os membros. Pernas quebradas em ângulos impossíveis giraram com estalos secos. A pele rasgada costurou-se sozinha, apagando o trauma, apagando a cicatriz, apagando o alívio.
Completamente nu no asfalto, o homem puxou o ar com um engasgo violento. Não estava morto. Estava chorando.
Sentou-se no meio do próprio sangue — que já evaporava sob o sol vermelho — e encarou as mãos intactas.
— Por que não acaba? — soluçou, esmurrando o concreto. — Eu só queria dormir…
Kael jogou a bituca no chão e a esmagou com a bota. Caminhou até o homem. Sua sombra o cobriu.
— Levante-se, cidadão.
— Comandante… — O homem agarrou a bota de Kael, os dedos escorregadios de sangue. — Por favor. Eu sei que você sabe como acabar com isso. Dê-me um tiro. Eu transfiro tudo o que tenho.
Kael olhou para baixo. Nas íris dilatadas do homem, viu o reflexo do Sol Vermelho — aquele sol doente, inchado, que se recusava a se pôr.
— Guarde seus créditos — respondeu, chutando a mão do homem com um movimento seco. — A morte é um luxo que a nossa espécie não pode mais pagar.
Deu as costas e voltou a caminhar pela multidão, absoluto, indiferente aos soluços do cidadão condenado a viver para sempre com a memória da própria queda inútil.
Lá em cima, a Anã Vermelha pulsou através da névoa.
O inferno não é feito de fogo e enxofre.
O inferno é o tempo.
A primeira coisa que sinto ao despertar não é a luz. É a fome.
Ela não chega como visita. Mora em mim. Rói as bordas internas das costelas com unhas que não existem. Não pede comida — pediu, há décadas. Agora só ronca.
Abro os olhos. As pás do ventilador giram num ritmo doentio — fwoomp, fwoomp, fwoomp — fatiando o ar sem refrescar nada. Na escrivaninha, uma barra de proteína e um copo de café aguardam há seis semanas. O mofo já colonizou os dois. Não me interessa saber se me matariam ou me saciariam.
Ponho os pés no chão de pedra gasta e espero o estalo da coluna, a vertigem. Não vem. Os músculos respondem com eficiência hidráulica, como sempre respondem, como vão responder amanhã e daqui a mil amanhãs.
É uma blasfêmia continuar de pé.
Pego um caco de vidro do chão e pressiono contra a palma. A pele se rompe. O sangue brota, escuro e vivo. Um. Dois. Três segundos — e o zumbido começa, uma vibração fria na raiz dos dentes. Fios prateados tecem a carne de volta. Sem cicatriz. Sem memória. O único relógio que ainda funciona neste apartamento: o tempo que meu corpo leva pra esquecer que eu me cortei.
Abro as persianas de metal. Lá fora, o Sol — a Anã Vermelha que se recusa a se pôr — pulsa fraco sobre a cidade vertical, e a névoa carmesim engole os últimos andares das mega-torres. Trinta andares abaixo, os Vivos-Mortos se arrastam sem destino, alimentados pela pasta proteica que o governo ainda chama de comida.
— Maldita perfeição — sussurro, e dou as costas à janela.
O servidor no canto é uma monstruosidade de sucata roubada dos lixões da Elite. O zumbido das ventoinhas é a única música que ainda me resta. Meus dedos encontram o teclado. Os cliques soam como ossos estalando.
Seis meses decodificando os fantasmas do Laboratório de Pesquisas Planetárias. A Elite não esconde as atrocidades em cofres — esconde em criptografia quântica, confiando que a população zumbificada nunca teria paciência pra quebrá-la. Esqueceram uma regra básica: o tédio cria especialistas. E eu tenho todo o tempo do mundo.
Uma linha de código verde luta contra o firewall. Suor frio escorre pela espinha.
A verdade se desenrola na tela. Mapas estelares. Diagramas de uma nave colossal, oculta no subsolo. Listas de passageiros com nomes que eu preferia não ter lido.
Abro o canal seguro.
— Anna.
A voz dela chega picotada pela estática, e mesmo assim eu escuto o sorriso torto por trás.
— Claus. Três dias sumido. Achei que você tinha finalmente descoberto como se morre.
— Eu consegui. Tenho os dados. A "salvação" que eles prometeram é exatamente o que a gente temia. Só que pior.
O silêncio do outro lado pesa. A piadinha morre na garganta dela.
— Tem certeza? Se desconfiarem que você tem a planta da Arca...
— Eles já sabem.
Um alerta escarlate explode no canto do monitor.
— A linha queima em trinta segundos. Nos Dutos Velhos, Setor 4. É o único ponto cego que restou.
— Te encontro em uma hora. Não faça besteiras.
— Prometer isso seria mentira. E você odeia quando eu minto.
Corto a comunicação. As agulhas magnéticas rasgam os discos até virarem pó. O monitor morre. Visto a jaqueta de couro sintético forrada com malha de chumbo, pego o capacete, injeto as coordenadas no GPS. Abandono o buraco de concreto que chamo de lar há cinquenta anos. No corredor, já ouço o zumbido dos drones varrendo o andar de cima.
Desço a escadaria de emergência pulando degraus. Elevadores são caixões — só que sem a vantagem de terminar.
Arranco a lona da moto. O motor elétrico acorda com um zumbido de enxame.
O acelerador responde. Os pneus gritam. Corto o trânsito estagnado, desvio de carros flutuantes enguiçados, de pedestres que nem levantam a cabeça. O GPS me empurra pela beira da Zona de Extermínio — onde a barreira contra o sol é mais fina, onde a Elite pendura sua obra mais recente.
Cabeças. Dezenas, fincadas em estacas de aço ao longo do acostamento derretido.
Não morremos mais. Então inventaram uma punição nova: separar a cabeça do tronco. O cérebro continua vivo. Sem corpo pra fechar os olhos, a consciência fica presa em loop, acordada pra sempre dentro do próprio crânio.
Passo a duzentos por hora. Os olhos deles estão escancarados sob o sol vermelho, secos, vidrados — como se cada alma ali dentro estivesse gritando por um corpo. Não pra viver de novo.
Só pra poder fechar os olhos uma última vez.
Aperto o acelerador. O motor urra.
Anna está esperando. E, pela primeira vez em muito tempo, eu tenho um motivo pra não me atrasar.
(Ponto de Vista: Comandante Kael)
A raiva é a única âncora que me impede de flutuar no abismo.
Não é quente. Não grita. É uma brasa fria que queima no centro do peito há centenas de anos. Às vezes a pressão é tanta que sinto as placas do crânio prestes a rachar de dentro para fora.
Séculos de rostos, nomes, gritos e tédio amontoados num cérebro que nunca desliga. Nunca formata. Nunca esquece. É ruído demais.
Já tentei o silêncio. Há duzentos anos enfiei o cano de uma pistola de serviço no ouvido direito e puxei o gatilho.
O estampido rasgou os tímpanos. Veio um silêncio branco e maravilhoso. Depois, os pesadelos. Todas as carnificinas que causei invadiram a mente desprotegida. Sem os filtros da vigília, o inferno abriu as portas dentro da minha própria cabeça.
Foram quatro minutos de tortura enquanto os nanorrobôs — os malditos Arquitetos — reconstruíam o córtex. Eu ouvia o som úmido da carne sendo remontada. Quando abri os olhos, engasgando com chumbo e sangue, entendi a piada: a vida lá fora não era nada comparada ao horror que carrego dentro.
Desde então, só a caçada funciona. O caos é a minha única morfina.
— Perímetro das Castas, senhor — a voz do piloto crepita no comunicador ósseo.
Olho pela escotilha do VTOL. O vidro de grafeno não impede o calor de irradiar contra a têmpora. Daqui de cima, a anatomia da desgraça fica clara.
No alto, as Cúpulas da Elite brilham herméticas. Compraram a eternidade e agora vivem presas em aquários de luxo, com medo de respirar o mesmo ar da plebe. Parasitas.
O transporte mergulha. Rasgamos a camada de smog. Passamos pela zona intermediária, onde os burocratas fingem controlar o apocalipse.
E eu? Sou o cão de guarda obrigado a morder quem tenta pular do carro em chamas.
— Zona de pouso visualizada. Setor 4. Bloco C-9.
Abaixo, a miséria se espalha em ferrugem e concreto. Os Pobres olham pra cima, protegendo os olhos. Talvez esperem um salvador. O céu hoje só cospe eu e meus homens.
— Solo.
O impacto no telhado sacode os dentes. A rampa desce com um silvo hidráulico.
— Mover!
Meus homens desembarcam em armaduras cinza. São bons. Ainda acreditam na missão. Eu desço por último. Minha armadura é negra, opaca, engole a luz vermelha.
Descemos a escadaria a chutes. O corredor fede a urina, repolho e circuitos fundidos.
Porta 402. Faço um gesto.
A carga explosiva desintegra as dobradiças. Entro com a pistola .50 erguida.
Vazio.
O quarto cheira a eletricidade e ozônio. Alguém esteve aqui há pouco — o terminal ainda zumbe no canto, uma monstruosidade de sucata, a ventoinha chorando no limite de giro.
— O alvo fugiu, senhor — diz o Sargento, chutando a cadeira. — Levou os dados.
Ignoro. Olho a escrivaninha. Uma barra de proteína rasgada e um copo de café com crosta verde de mofo. Semanas ali.
Pego o copo. O cheiro de fungo e leite azedo sobe.
— O que o senhor está fazendo? Isso é lixo biológico.
— Testando a imortalidade.
Bebo um gole generoso. O gosto é de morte fermentada. Desce como óleo queimado. Mordo a barra petrificada. Mastigo o mofo até esfarelar.
O Sargento recua. Eu sou o germe mais perigoso deste planeta.
Sinto a febre subir rápido. Os nanorrobôs aniquilam a intrusão em segundos e convertem o veneno em calorias.
Nada me mata. Nem bala, nem veneno, nem tédio.
A tela brilha: SISTEMA PURGADO / DADOS IRRECUPERÁVEIS.
— Maldito — resmunga o Sargento. — Acionamos os drones?
— Sim.
Os zangões emergem dos compartimentos do VTOL. Sincronizo a transmissão no visor. A varredura térmica flagra um veículo em alta velocidade na zona proibida. Assumo o controle de uma das máquinas, aproximo pelo ponto cego. O canhão magnético cospe — um disparo mudo, infalível. O rastreador gruda na carenagem traseira.
Ele segue adiante, sem desconfiar de nada.
Retiro a luva. A pele pálida paira sobre o teclado ainda quente.
— Ele formatou o disco fisicamente. Um amador pararia aqui — murmuro. — Eu caço fugitivos desde antes de o seu avô nascer.
Digito no console. Não busco arquivos. Busco o eco do handshake na placa de rede. Uma linha surge.
O ruído na minha cabeça para.
Ele não estava só fugindo. Estava entregando os dados. E estava perto.
Arranco o drive inútil.
— O alvo é um Fantasma Nível 5. Eu assumo a caçada. Solo.
— As diretrizes exigem escolta.
Caminho até o soldado. Minha sombra engole o corpo dele.
— Diga ao Comando que a caça é minha. Varredura cega nos esgotos do Setor Leste. Se me seguirem, poluem a frequência.
Passo pela porta destruída.
— Limpem a área e saiam. Agora.
Desço as escadas. O ar carrega ozônio e íons de bateria superaquecida. O cheiro da pressa.
Na garagem, ativo a visão termal. Duas linhas paralelas brilham em laranja no concreto — marcas de arrancada, menos de cinco minutos.
Ele foi para o Norte.
Saio pra rua. O sol vermelho atinge o visor, que filtra na hora. A multidão se arrasta pela via como um rio estagnado de carne letárgica. Camuflagem perfeita.
Não preciso mais do rastro térmico. Tenho o pulso do rastreador piscando no HUD, constante, íntimo, tão certo quanto um coração alheio batendo dentro do meu.
Guardo a arma no coldre. Misturo-me à multidão.
Um predador nadando em silêncio no meio do cardume, seguindo reto para o abate.
(Ponto de Vista: Claus)
O vento superaquecido chicoteia o capacete enquanto rasgo a Avenida Central. Os monólitos passam como borrões vermelhos.
— Claus? — A voz de Anna chega tensa no comunicador.
— Na escuta. Dois minutos do ponto. Tá um caos aqui.
— Pare. Não entre nos Dutos.
Solto o acelerador por reflexo. A moto dá um solavanco.
— O quê?
— Você tem certeza absoluta de que não foi rastreado?
— Deletei tudo. Purga nível zero. Disco virou pó. Quando arrombaram, acharam tela preta e cheiro de mofo.
— Estou monitorando as câmeras do bloco. O esquadrão bateu em retirada… mas um ficou.
Engulo em seco.
— Quem?
— Um Comandante Nível 1. Armadura negra. Guarda Pretoriana. Saiu pela mesma porta da garagem quatro minutos depois de você.
Um frio sobe pela espinha, ignorando o calor.
Um dos Originais. Dos que ainda lembram como era matar antes da morte ser revogada.
— Talvez seja coincidência.
— Não é. Ele está a pé, em linha reta, abrindo caminho pela multidão. Não está procurando. Está caçando. O vetor aponta pros Dutos.
Olho o retrovisor. Só poeira vermelha e corpos lentos. Mas sinto o peso do olhar nas costas.
— O ponto de encontro está queimado — diz Anna. — Se descer a rampa, ele te encurrala. Contra um Nível 1 você não dura dez segundos.
Aperto o acelerador até as juntas estalarem.
— Qual é o plano?
— Mude o vetor. Passe direto pela Entrada Norte e me pegue no setor 5. Reduza a velocidade. Me pegue na calçada do laboratório Químico. Extração em movimento. Tenho uma safehouse no Setor Leste. Precisamos sumir da linha de visão dele agora.
— Esteja pronta.
Giro a manopla até o limite. O velocímetro pisca vermelho.
Um clique metálico soa no vento, vindo de algum lugar atrás de mim. Só o vento, decido, batendo numa peça solta da bagagem. Não há tempo pra verificar.
Estou chegando. Anna está esperando — e é a única coisa que importa agora.
(Ponto de Vista: Comandante Kael)
A multidão é um enxame lento. O alvo é uma faísca fugindo entre os corpos.
A lógica é matemática: a pé, a probabilidade de interceptação cai para zero em menos de três minutos. Preciso de velocidade. Agora.
Meus olhos varrem o perímetro. Localizo uma motocicleta de carga encostada num beco lateral, sob um toldo rasgado — um "Cavalo de Ferro" velho, usado pra transportar sucata, pintura descascada pelas tempestades de areia, chassi oxidado pelo sol.
O dono, um comerciante qualquer, está distraído com uma aglomeração de gente apostando em brigas de rua — a única distração que os pobres-coitados ainda têm pra esquecer o próprio tempo.
Aproximo-me. Não preciso de chaves. Meu capacete carrega autoridade de requisição direta. Foco no painel.
Um feixe de dados sai do meu transmissor de pulso. O sistema primitivo da moto não resiste. BIP. O painel acende num verde doentio.
O motor tosse e acorda. Trinta por cento de bateria. Pouca carga pra uma viagem longa, mas suficiente para um abate.
Monto na sela gasta. O couro range sob a meia tonelada da minha armadura. O comerciante se vira ao ouvir o motor e grita, agitando os braços magros como um espantalho furioso.
— Ei! Essa é minha...!
Acelero.
A voz dele some na poeira. Costuro o tráfego estagnado sem atropelar ninguém — o caos gera atrito, e o atrito reduz a velocidade. Transformo aquela lata velha numa extensão fluida da minha vontade, desviando de ombros e carrinhos de mão por milímetros de distância.
De repente, um brilho dourado invade o visor, sobrepondo-se à interface fria de rastreamento.
O mundo vermelho e apodrecido ao meu redor congela por um milésimo de segundo.
Ah, Cleo... A única coisa pura que restou neste esgoto planetário. Desde antes do Colapso, desde quando o céu ainda era azul. Ela escolheu ficar ao meu lado, suportando a minha frieza e os meus séculos de guerra diária, transformando nosso apartamento blindado em lar, não em bunker.
Tomates de verdade. O luxo final.
Sinto um aperto no peito que não tem nada a ver com a pressurização da armadura. Eu queimaria este setor inteiro até as fundações só pra manter o sorriso dela por mais um dia.
Mas o dever é ciumento. E é o dever que paga o jantar.
Minimizo a mensagem, guardando-a no canto da tela como um talismã sagrado.
— Espere por mim, Cleo — sussurro. — O jantar vai ter que esperar o sangue secar.
Giro a manopla até o fim. A moto geme, mas obedece.
Sigo pela Zona Proibida, guiado pelo pulso constante do rastreador no HUD. O Sol Vermelho fica permanentemente a pino aqui. Areia vitrificada. Calor de oitenta graus.
Sei que só monstros habitam esta região. O que eu não sei é se algum deles ousaria me desafiar.
Vou cozinhar dentro desta armadura. Os sistemas de refrigeração vão gritar. Mas corto o tempo de perseguição pela metade.
O sinal pulsa mais forte a cada quilômetro.
(Ponto de Vista: Claus)
Avisto a Entrada do laboratório químico. Torres de vigilância mortas projetam sombras longas sobre o asfalto rachado.
Anna está lá. Uma figura minúscula encostada num pilar corroído.
A tragédia cômica da nossa existência me atinge como um soco. Anna parou no tempo — foi uma das primeiras a receber a versão original da vacina, congelada para sempre no corpo de uma menina de doze anos. Mas a postura dela não tem nada de infantil. Fuma o cigarro eletrônico com a naturalidade ríspida de um estivador, e os olhos dela não são de criança — são poços gravitacionais, negros e implacáveis, carregando o peso de séculos de pesquisa científica e segredos estelares.
Derrapo ao lado dela numa tempestade de poeira escarlate.
— Sobe!
Ela joga o cigarro e se lança na garupa.
— Dirija, Claus!
Antes que ela firme os pés nas pedaleiras, o ar rasga ao meio.
CRACK.
Não ouço o estampido primeiro; sinto o deslocamento de ar. O corpo de Anna é arrancado da moto como uma boneca de pano estilhaçada por um martelo invisível. Ela voa dois metros e bate no chão, rolando inerte pela poeira.
— ANNA!
Saindo da nuvem de areia fervente, uma moto surge rasgando o horizonte. O piloto é uma torre de cerâmica negra, a armadura absorvendo a luz do sol moribundo, imponente como a própria Morte.
O Comandante.
Saco a pistola e esvazio o carregador. BANG-BANG-BANG. As balas ricocheteiam no peito blindado. Faíscas inúteis.
Dois tiros acertam o visor. Não perfuram, mas a energia cinética existe. A cabeça dele chicoteia pra trás. A moto samba. Ele tomba.
Anna já está de pé. Há um rombo nas costas do tamanho de um prato — carne crua, coluna exposta, sem sangue jorrando, só o zumbido dos nanorrobôs costurando tudo de volta.
— Vamos logo, porra!
O Comandante tenta se levantar a poucos metros da minha roda traseira. Fugir não basta. Ele nunca vai parar de vir.
Viro o guidão na direção dele. Travo o freio dianteiro. Acelero tudo com a outra mão.
A roda traseira gira em falso, uivando. A borracha queima contra o asfalto. Jogo a traseira de lado e posiciono o pneu exatamente sobre o capacete dele.
O visor cede. O pneu invade. O som muda — deixa de ser borracha no chão e vira algo denso, pastoso, doentio. Névoa vermelha espirra no paralama. Fragmentos de crânio e plástico voam pelo ar.
— Isso vai te segurar por uns minutos.
Solto o freio. A moto dispara. Anna se segura na minha cintura com força sobre-humana enquanto deixamos o corpo sem rosto convulsionando na poeira.
(Ponto de Vista: Comandante Kael)
O zumbido da moto some na distância.
Fica o silêncio. E a escuridão.
Estou cego. Estou mudo. A metade frontal do meu crânio não existe mais — foi lixada até a base da mandíbula.
Mas estou consciente.
Os Arquitetos despertam. Sinto cada operário microscópico em frenesi absoluto, acionando o protocolo Lázaro. Faz séculos que não sofro dano de Nível 5.
A dor é sólida. Obrigatória. Não há anestesia na reconstrução.
Ouço — pela vibração óssea — o estalo de cartilagem e osso crescendo. Placas cranianas sendo puxadas de volta. Dentes irrompendo na gengiva. Cada religação nervosa queima como agulha incandescente.
Tento gritar. Não tenho boca. Só uma cratera borbulhante.
Levanto-me às cegas, tateando o asfalto quente. Meus joelhos tremem. O corpo está devorando a própria gordura pra alimentar a regeneração.
Os nervos ópticos se religam. Primeiro, estática. Depois o vermelho do mundo sangra pra dentro da retina nova. O foco volta, afiado.
Vejo meu sangue misturado à poeira. Pedaços do rosto antigo espalhados ao lado das lascas do capacete.
Passo a língua — nova, hipersensível — sobre os dentes recém-formados. O gosto é metálico. O gosto da derrota temporária.
Olho pro horizonte onde eles desapareceram.
— Arquitetos... — A voz sai gutural, testando as cordas novas. — Terminem o serviço. Temos uma caçada pra finalizar.
Os tomates vão esfriar.
Cleo vai entender.
Ela sempre entende.