SOL VERMELHO

Sergio Mendonça

Obrigado por aceitar esse convite e entrar comigo neste universo. Ele nasceu dos meus sonhos, e eu quis te dar a melhor experiência possível nessa viagem ao desconhecido.

Uma obra só continua viva enquanto existir gente disposta a lê-la e criticá-la. Espero que você se divirta. Boa viagem.

REDSHIFT

Sergio Mendonça

Thank you for accepting this invitation and stepping into this universe with me. It was born from my dreams, and I wanted to give you the best possible experience on this journey into the unknown.

A work only stays alive as long as there are people willing to read it and critique it. I hope you enjoy it. Have a good journey.

[ FRAGMENTO DECRIPTADO // ACESSO PÚBLICO AUTORIZADO ]

Prólogo

A Maldição da Carne

O corpo despencou do topo de uma das mega-torres.

A queda durou quinze segundos. Um mergulho silencioso através da névoa carmesim. O vento uivava nos ouvidos do homem, abafando o zumbido da cidade e trezentos anos de tédio.

Ele atingiu a Avenida Central com a força de um meteoro.

O som foi nauseante: uma explosão úmida de carne e osso contra o concreto. O impacto desenhou uma coroa de sangue escuro em um raio de três metros, manchando as botas dos pedestres.

Ninguém gritou.

Ninguém correu.

A multidão apenas parou. Formaram um círculo com a indiferença de quem observa uma máquina de venda automática enguiçada.

No centro da poça, a massa de carne começou a chiar.

Não era fritura. Era reconstrução. Um zumbido elétrico nasceu de dentro do próprio sangue, misturando o cheiro de cobre ao ozônio.

O Comandante Kael observava da calçada. Tragou a nicotina vaporizada do cigarro que não queimava. Não desviou o olhar. Já vira aquilo mil vezes.

Primeiro o crânio esmagado inflou. Fragmentos de osso foram puxados de volta por fios prateados. O cérebro, espalhado pelo chão, liquefez-se e foi reabsorvido em segundos.

Depois vieram os membros. Pernas quebradas em ângulos impossíveis giraram com estalos secos. A pele rasgada costurou-se sozinha, apagando o trauma, apagando a cicatriz, apagando o alívio.

Completamente nu no asfalto, o homem puxou o ar com um engasgo violento. Não estava morto. Estava chorando.

Sentou-se no meio do próprio sangue — que já evaporava sob o sol vermelho — e encarou as mãos intactas.

— Por que não acaba? — soluçou, esmurrando o concreto. — Eu só queria dormir…

Kael jogou a bituca no chão e a esmagou com a bota. Caminhou até o homem. Sua sombra o cobriu.

— Levante-se, cidadão.

— Comandante… — O homem agarrou a bota de Kael, os dedos escorregadios de sangue. — Por favor. Eu sei que você sabe como acabar com isso. Dê-me um tiro. Eu transfiro tudo o que tenho.

Kael olhou para baixo. Nas íris dilatadas do homem, viu o reflexo do Sol Vermelho — aquele sol doente, inchado, que se recusava a se pôr.

— Guarde seus créditos — respondeu, chutando a mão do homem com um movimento seco. — A morte é um luxo que a nossa espécie não pode mais pagar.

Deu as costas e voltou a caminhar pela multidão, absoluto, indiferente aos soluços do cidadão condenado a viver para sempre com a memória da própria queda inútil.

Lá em cima, a Anã Vermelha pulsou através da névoa.

O inferno não é feito de fogo e enxofre.

O inferno é o tempo.

[ FIM DO FRAGMENTO // CARREGANDO ARQUIVO SEGUINTE ]

O Funeral Cósmico

"A morte é uma doença. Nós somos a cura. Diga adeus ao luto. Diga olá para a Eternidade."
— Slogan da Campanha Publicitária da ImunoCorp, Ano 2199 (Era Pré-Colapso).

A primeira coisa que sinto ao despertar não é a luz. É a fome.

Ela não chega como visita. Mora em mim. Rói as bordas internas das costelas com unhas que não existem. Não pede comida — pediu, há décadas. Agora só ronca.

Abro os olhos. As pás do ventilador giram num ritmo doentio — fwoomp, fwoomp, fwoomp — fatiando o ar sem refrescar nada. Na escrivaninha, uma barra de proteína e um copo de café aguardam há seis semanas. O mofo já colonizou os dois. Não me interessa saber se me matariam ou me saciariam.

Ponho os pés no chão de pedra gasta e espero o estalo da coluna, a vertigem. Não vem. Os músculos respondem com eficiência hidráulica, como sempre respondem, como vão responder amanhã e daqui a mil amanhãs.

É uma blasfêmia continuar de pé.

Pego um caco de vidro do chão e pressiono contra a palma. A pele se rompe. O sangue brota, escuro e vivo. Um. Dois. Três segundos — e o zumbido começa, uma vibração fria na raiz dos dentes. Fios prateados tecem a carne de volta. Sem cicatriz. Sem memória. O único relógio que ainda funciona neste apartamento: o tempo que meu corpo leva pra esquecer que eu me cortei.

Abro as persianas de metal. Lá fora, o Sol — a Anã Vermelha que se recusa a se pôr — pulsa fraco sobre a cidade vertical, e a névoa carmesim engole os últimos andares das mega-torres. Trinta andares abaixo, os Vivos-Mortos se arrastam sem destino, alimentados pela pasta proteica que o governo ainda chama de comida.

— Maldita perfeição — sussurro, e dou as costas à janela.

O servidor no canto é uma monstruosidade de sucata roubada dos lixões da Elite. O zumbido das ventoinhas é a única música que ainda me resta. Meus dedos encontram o teclado. Os cliques soam como ossos estalando.

USUÁRIO: CLAUS
STATUS: ALVO PRIORITÁRIO — NÍVEL 4
CONEXÃO: ESTABELECIDA VIA PROXY FANTASMA

Seis meses decodificando os fantasmas do Laboratório de Pesquisas Planetárias. A Elite não esconde as atrocidades em cofres — esconde em criptografia quântica, confiando que a população zumbificada nunca teria paciência pra quebrá-la. Esqueceram uma regra básica: o tédio cria especialistas. E eu tenho todo o tempo do mundo.

Uma linha de código verde luta contra o firewall. Suor frio escorre pela espinha.

ACESSO CONCEDIDO.
ARQUIVO: PROJETO_ARCA.DAT
DESCOMPACTADO.

A verdade se desenrola na tela. Mapas estelares. Diagramas de uma nave colossal, oculta no subsolo. Listas de passageiros com nomes que eu preferia não ter lido.

Abro o canal seguro.

— Anna.

A voz dela chega picotada pela estática, e mesmo assim eu escuto o sorriso torto por trás.

— Claus. Três dias sumido. Achei que você tinha finalmente descoberto como se morre.

— Eu consegui. Tenho os dados. A "salvação" que eles prometeram é exatamente o que a gente temia. Só que pior.

O silêncio do outro lado pesa. A piadinha morre na garganta dela.

— Tem certeza? Se desconfiarem que você tem a planta da Arca...

— Eles já sabem.

Um alerta escarlate explode no canto do monitor.

RASTREAMENTO ATIVO DETECTADO.
NÓ: SETOR 7.
TRIANGULAÇÃO: 98% CONCLUÍDA.

— A linha queima em trinta segundos. Nos Dutos Velhos, Setor 4. É o único ponto cego que restou.

— Te encontro em uma hora. Não faça besteiras.

— Prometer isso seria mentira. E você odeia quando eu minto.

Corto a comunicação. As agulhas magnéticas rasgam os discos até virarem pó. O monitor morre. Visto a jaqueta de couro sintético forrada com malha de chumbo, pego o capacete, injeto as coordenadas no GPS. Abandono o buraco de concreto que chamo de lar há cinquenta anos. No corredor, já ouço o zumbido dos drones varrendo o andar de cima.

Desço a escadaria de emergência pulando degraus. Elevadores são caixões — só que sem a vantagem de terminar.

Arranco a lona da moto. O motor elétrico acorda com um zumbido de enxame.

INTRUSÃO FÍSICA DETECTADA: APARTAMENTO 402.
Menos de cento e vinte segundos.

O acelerador responde. Os pneus gritam. Corto o trânsito estagnado, desvio de carros flutuantes enguiçados, de pedestres que nem levantam a cabeça. O GPS me empurra pela beira da Zona de Extermínio — onde a barreira contra o sol é mais fina, onde a Elite pendura sua obra mais recente.

Cabeças. Dezenas, fincadas em estacas de aço ao longo do acostamento derretido.

Não morremos mais. Então inventaram uma punição nova: separar a cabeça do tronco. O cérebro continua vivo. Sem corpo pra fechar os olhos, a consciência fica presa em loop, acordada pra sempre dentro do próprio crânio.

Passo a duzentos por hora. Os olhos deles estão escancarados sob o sol vermelho, secos, vidrados — como se cada alma ali dentro estivesse gritando por um corpo. Não pra viver de novo.

Só pra poder fechar os olhos uma última vez.

Aperto o acelerador. O motor urra.

Anna está esperando. E, pela primeira vez em muito tempo, eu tenho um motivo pra não me atrasar.

[ FIM DO ARQUIVO // CARREGANDO PRÓXIMO REGISTRO ]

O Cão de Guarda

"Registro Médico Militar #892: O paciente Kael sofreu trauma craniano severo autoinduzido. O projétil calibre .45 destruiu 40% da massa encefálica e o ouvido interno direito. Regeneração completa estimada em 180 segundos. Observação: O paciente continua consciente durante o processo biológico e... rindo."
— Arquivos do Hospital Central, Ano 122 P.C.

(Ponto de Vista: Comandante Kael)

A raiva é a única âncora que me impede de flutuar no abismo.

Não é quente. Não grita. É uma brasa fria que queima no centro do peito há centenas de anos. Às vezes a pressão é tanta que sinto as placas do crânio prestes a rachar de dentro para fora.

Séculos de rostos, nomes, gritos e tédio amontoados num cérebro que nunca desliga. Nunca formata. Nunca esquece. É ruído demais.

Já tentei o silêncio. Há duzentos anos enfiei o cano de uma pistola de serviço no ouvido direito e puxei o gatilho.

O estampido rasgou os tímpanos. Veio um silêncio branco e maravilhoso. Depois, os pesadelos. Todas as carnificinas que causei invadiram a mente desprotegida. Sem os filtros da vigília, o inferno abriu as portas dentro da minha própria cabeça.

Foram quatro minutos de tortura enquanto os nanorrobôs — os malditos Arquitetos — reconstruíam o córtex. Eu ouvia o som úmido da carne sendo remontada. Quando abri os olhos, engasgando com chumbo e sangue, entendi a piada: a vida lá fora não era nada comparada ao horror que carrego dentro.

Desde então, só a caçada funciona. O caos é a minha única morfina.

— Perímetro das Castas, senhor — a voz do piloto crepita no comunicador ósseo.

Olho pela escotilha do VTOL. O vidro de grafeno não impede o calor de irradiar contra a têmpora. Daqui de cima, a anatomia da desgraça fica clara.

No alto, as Cúpulas da Elite brilham herméticas. Compraram a eternidade e agora vivem presas em aquários de luxo, com medo de respirar o mesmo ar da plebe. Parasitas.

O transporte mergulha. Rasgamos a camada de smog. Passamos pela zona intermediária, onde os burocratas fingem controlar o apocalipse.

E eu? Sou o cão de guarda obrigado a morder quem tenta pular do carro em chamas.

— Zona de pouso visualizada. Setor 4. Bloco C-9.

Abaixo, a miséria se espalha em ferrugem e concreto. Os Pobres olham pra cima, protegendo os olhos. Talvez esperem um salvador. O céu hoje só cospe eu e meus homens.

— Solo.

O impacto no telhado sacode os dentes. A rampa desce com um silvo hidráulico.

— Mover!

Meus homens desembarcam em armaduras cinza. São bons. Ainda acreditam na missão. Eu desço por último. Minha armadura é negra, opaca, engole a luz vermelha.

Descemos a escadaria a chutes. O corredor fede a urina, repolho e circuitos fundidos.

Porta 402. Faço um gesto.

A carga explosiva desintegra as dobradiças. Entro com a pistola .50 erguida.

Vazio.

O quarto cheira a eletricidade e ozônio. Alguém esteve aqui há pouco — o terminal ainda zumbe no canto, uma monstruosidade de sucata, a ventoinha chorando no limite de giro.

— O alvo fugiu, senhor — diz o Sargento, chutando a cadeira. — Levou os dados.

Ignoro. Olho a escrivaninha. Uma barra de proteína rasgada e um copo de café com crosta verde de mofo. Semanas ali.

Pego o copo. O cheiro de fungo e leite azedo sobe.

— O que o senhor está fazendo? Isso é lixo biológico.
— Testando a imortalidade.

Bebo um gole generoso. O gosto é de morte fermentada. Desce como óleo queimado. Mordo a barra petrificada. Mastigo o mofo até esfarelar.

O Sargento recua. Eu sou o germe mais perigoso deste planeta.

Sinto a febre subir rápido. Os nanorrobôs aniquilam a intrusão em segundos e convertem o veneno em calorias.

Nada me mata. Nem bala, nem veneno, nem tédio.

A tela brilha: SISTEMA PURGADO / DADOS IRRECUPERÁVEIS.

— Maldito — resmunga o Sargento. — Acionamos os drones?
— Sim.

Os zangões emergem dos compartimentos do VTOL. Sincronizo a transmissão no visor. A varredura térmica flagra um veículo em alta velocidade na zona proibida. Assumo o controle de uma das máquinas, aproximo pelo ponto cego. O canhão magnético cospe — um disparo mudo, infalível. O rastreador gruda na carenagem traseira.

Ele segue adiante, sem desconfiar de nada.

Retiro a luva. A pele pálida paira sobre o teclado ainda quente.

— Ele formatou o disco fisicamente. Um amador pararia aqui — murmuro. — Eu caço fugitivos desde antes de o seu avô nascer.

Digito no console. Não busco arquivos. Busco o eco do handshake na placa de rede. Uma linha surge.

COORDENADA DETECTADA: ENTRADA NORTE. SETOR INDUSTRIAL ABANDONADO. TEMPO DO PACOTE: 4 MINUTOS ATRÁS.

O ruído na minha cabeça para.

Ele não estava só fugindo. Estava entregando os dados. E estava perto.

Arranco o drive inútil.

— O alvo é um Fantasma Nível 5. Eu assumo a caçada. Solo.
— As diretrizes exigem escolta.

Caminho até o soldado. Minha sombra engole o corpo dele.

— Diga ao Comando que a caça é minha. Varredura cega nos esgotos do Setor Leste. Se me seguirem, poluem a frequência.

Passo pela porta destruída.

— Limpem a área e saiam. Agora.

Desço as escadas. O ar carrega ozônio e íons de bateria superaquecida. O cheiro da pressa.

Na garagem, ativo a visão termal. Duas linhas paralelas brilham em laranja no concreto — marcas de arrancada, menos de cinco minutos.

Ele foi para o Norte.

Saio pra rua. O sol vermelho atinge o visor, que filtra na hora. A multidão se arrasta pela via como um rio estagnado de carne letárgica. Camuflagem perfeita.

Não preciso mais do rastro térmico. Tenho o pulso do rastreador piscando no HUD, constante, íntimo, tão certo quanto um coração alheio batendo dentro do meu.

Guardo a arma no coldre. Misturo-me à multidão.

Um predador nadando em silêncio no meio do cardume, seguindo reto para o abate.

(Ponto de Vista: Claus)

O vento superaquecido chicoteia o capacete enquanto rasgo a Avenida Central. Os monólitos passam como borrões vermelhos.

— Claus? — A voz de Anna chega tensa no comunicador.
— Na escuta. Dois minutos do ponto. Tá um caos aqui.
— Pare. Não entre nos Dutos.

Solto o acelerador por reflexo. A moto dá um solavanco.

— O quê?
— Você tem certeza absoluta de que não foi rastreado?
— Deletei tudo. Purga nível zero. Disco virou pó. Quando arrombaram, acharam tela preta e cheiro de mofo.
— Estou monitorando as câmeras do bloco. O esquadrão bateu em retirada… mas um ficou.

Engulo em seco.

— Quem?
— Um Comandante Nível 1. Armadura negra. Guarda Pretoriana. Saiu pela mesma porta da garagem quatro minutos depois de você.

Um frio sobe pela espinha, ignorando o calor.

Um dos Originais. Dos que ainda lembram como era matar antes da morte ser revogada.

— Talvez seja coincidência.
— Não é. Ele está a pé, em linha reta, abrindo caminho pela multidão. Não está procurando. Está caçando. O vetor aponta pros Dutos.

Olho o retrovisor. Só poeira vermelha e corpos lentos. Mas sinto o peso do olhar nas costas.

— O ponto de encontro está queimado — diz Anna. — Se descer a rampa, ele te encurrala. Contra um Nível 1 você não dura dez segundos.

Aperto o acelerador até as juntas estalarem.

— Qual é o plano?
— Mude o vetor. Passe direto pela Entrada Norte e me pegue no setor 5. Reduza a velocidade. Me pegue na calçada do laboratório Químico. Extração em movimento. Tenho uma safehouse no Setor Leste. Precisamos sumir da linha de visão dele agora.
— Esteja pronta.

Giro a manopla até o limite. O velocímetro pisca vermelho.

Um clique metálico soa no vento, vindo de algum lugar atrás de mim. Só o vento, decido, batendo numa peça solta da bagagem. Não há tempo pra verificar.

Estou chegando. Anna está esperando — e é a única coisa que importa agora.

[ FIM DO ARQUIVO // CARREGANDO PRÓXIMO REGISTRO ]

Extração

"É com orgulho que a HelioCorp anuncia: os testes de Drenagem Estelar em laboratório foram um sucesso absoluto. Amanhã, lançaremos os Extratores Orbitais rumo ao Sol. Em breve, seremos uma civilização de Energia Infinita, prontos para dominar não apenas este sistema, mas todas as estrelas do firmamento."
— Manchete do "Diário da Ascensão", um dia antes do Grande Colapso.

(Ponto de Vista: Comandante Kael)

A multidão é um enxame lento. O alvo é uma faísca fugindo entre os corpos.

A lógica é matemática: a pé, a probabilidade de interceptação cai para zero em menos de três minutos. Preciso de velocidade. Agora.

Meus olhos varrem o perímetro. Localizo uma motocicleta de carga encostada num beco lateral, sob um toldo rasgado — um "Cavalo de Ferro" velho, usado pra transportar sucata, pintura descascada pelas tempestades de areia, chassi oxidado pelo sol.

O dono, um comerciante qualquer, está distraído com uma aglomeração de gente apostando em brigas de rua — a única distração que os pobres-coitados ainda têm pra esquecer o próprio tempo.

Aproximo-me. Não preciso de chaves. Meu capacete carrega autoridade de requisição direta. Foco no painel.

ALVO: VEÍCULO CIVIL CLASSE C.
PROTOCOLO DE REQUISIÇÃO MILITAR: ATIVAR.

Um feixe de dados sai do meu transmissor de pulso. O sistema primitivo da moto não resiste. BIP. O painel acende num verde doentio.

<Acesso Bem-vindo, Comandante. Concedido. Ignição Iniciada.>

O motor tosse e acorda. Trinta por cento de bateria. Pouca carga pra uma viagem longa, mas suficiente para um abate.

Monto na sela gasta. O couro range sob a meia tonelada da minha armadura. O comerciante se vira ao ouvir o motor e grita, agitando os braços magros como um espantalho furioso.

— Ei! Essa é minha...!

Acelero.

A voz dele some na poeira. Costuro o tráfego estagnado sem atropelar ninguém — o caos gera atrito, e o atrito reduz a velocidade. Transformo aquela lata velha numa extensão fluida da minha vontade, desviando de ombros e carrinhos de mão por milímetros de distância.

De repente, um brilho dourado invade o visor, sobrepondo-se à interface fria de rastreamento.

REMETENTE: CLEO
MENSAGEM DE TEXTO PRIORITÁRIA.

"Você vem para o jantar? Consegue trazer tomates de verdade hoje? Não deixe a comida esfriar."

O mundo vermelho e apodrecido ao meu redor congela por um milésimo de segundo.

Ah, Cleo... A única coisa pura que restou neste esgoto planetário. Desde antes do Colapso, desde quando o céu ainda era azul. Ela escolheu ficar ao meu lado, suportando a minha frieza e os meus séculos de guerra diária, transformando nosso apartamento blindado em lar, não em bunker.

Tomates de verdade. O luxo final.

Sinto um aperto no peito que não tem nada a ver com a pressurização da armadura. Eu queimaria este setor inteiro até as fundações só pra manter o sorriso dela por mais um dia.

Mas o dever é ciumento. E é o dever que paga o jantar.

Minimizo a mensagem, guardando-a no canto da tela como um talismã sagrado.

— Espere por mim, Cleo — sussurro. — O jantar vai ter que esperar o sangue secar.

Giro a manopla até o fim. A moto geme, mas obedece.

Sigo pela Zona Proibida, guiado pelo pulso constante do rastreador no HUD. O Sol Vermelho fica permanentemente a pino aqui. Areia vitrificada. Calor de oitenta graus.

Sei que só monstros habitam esta região. O que eu não sei é se algum deles ousaria me desafiar.

Vou cozinhar dentro desta armadura. Os sistemas de refrigeração vão gritar. Mas corto o tempo de perseguição pela metade.

O sinal pulsa mais forte a cada quilômetro.

(Ponto de Vista: Claus)

Avisto a Entrada do laboratório químico. Torres de vigilância mortas projetam sombras longas sobre o asfalto rachado.

Anna está lá. Uma figura minúscula encostada num pilar corroído.

A tragédia cômica da nossa existência me atinge como um soco. Anna parou no tempo — foi uma das primeiras a receber a versão original da vacina, congelada para sempre no corpo de uma menina de doze anos. Mas a postura dela não tem nada de infantil. Fuma o cigarro eletrônico com a naturalidade ríspida de um estivador, e os olhos dela não são de criança — são poços gravitacionais, negros e implacáveis, carregando o peso de séculos de pesquisa científica e segredos estelares.

Derrapo ao lado dela numa tempestade de poeira escarlate.

— Sobe!

Ela joga o cigarro e se lança na garupa.

— Dirija, Claus!

Antes que ela firme os pés nas pedaleiras, o ar rasga ao meio.

CRACK.

Não ouço o estampido primeiro; sinto o deslocamento de ar. O corpo de Anna é arrancado da moto como uma boneca de pano estilhaçada por um martelo invisível. Ela voa dois metros e bate no chão, rolando inerte pela poeira.

— ANNA!

Saindo da nuvem de areia fervente, uma moto surge rasgando o horizonte. O piloto é uma torre de cerâmica negra, a armadura absorvendo a luz do sol moribundo, imponente como a própria Morte.

O Comandante.

Saco a pistola e esvazio o carregador. BANG-BANG-BANG. As balas ricocheteiam no peito blindado. Faíscas inúteis.

Dois tiros acertam o visor. Não perfuram, mas a energia cinética existe. A cabeça dele chicoteia pra trás. A moto samba. Ele tomba.

Anna já está de pé. Há um rombo nas costas do tamanho de um prato — carne crua, coluna exposta, sem sangue jorrando, só o zumbido dos nanorrobôs costurando tudo de volta.

— Vamos logo, porra!

O Comandante tenta se levantar a poucos metros da minha roda traseira. Fugir não basta. Ele nunca vai parar de vir.

Viro o guidão na direção dele. Travo o freio dianteiro. Acelero tudo com a outra mão.

A roda traseira gira em falso, uivando. A borracha queima contra o asfalto. Jogo a traseira de lado e posiciono o pneu exatamente sobre o capacete dele.

O visor cede. O pneu invade. O som muda — deixa de ser borracha no chão e vira algo denso, pastoso, doentio. Névoa vermelha espirra no paralama. Fragmentos de crânio e plástico voam pelo ar.

— Isso vai te segurar por uns minutos.

Solto o freio. A moto dispara. Anna se segura na minha cintura com força sobre-humana enquanto deixamos o corpo sem rosto convulsionando na poeira.

(Ponto de Vista: Comandante Kael)

O zumbido da moto some na distância.

Fica o silêncio. E a escuridão.

Estou cego. Estou mudo. A metade frontal do meu crânio não existe mais — foi lixada até a base da mandíbula.

Mas estou consciente.

Os Arquitetos despertam. Sinto cada operário microscópico em frenesi absoluto, acionando o protocolo Lázaro. Faz séculos que não sofro dano de Nível 5.

A dor é sólida. Obrigatória. Não há anestesia na reconstrução.

Ouço — pela vibração óssea — o estalo de cartilagem e osso crescendo. Placas cranianas sendo puxadas de volta. Dentes irrompendo na gengiva. Cada religação nervosa queima como agulha incandescente.

Tento gritar. Não tenho boca. Só uma cratera borbulhante.

Levanto-me às cegas, tateando o asfalto quente. Meus joelhos tremem. O corpo está devorando a própria gordura pra alimentar a regeneração.

Os nervos ópticos se religam. Primeiro, estática. Depois o vermelho do mundo sangra pra dentro da retina nova. O foco volta, afiado.

Vejo meu sangue misturado à poeira. Pedaços do rosto antigo espalhados ao lado das lascas do capacete.

Passo a língua — nova, hipersensível — sobre os dentes recém-formados. O gosto é metálico. O gosto da derrota temporária.

Olho pro horizonte onde eles desapareceram.

— Arquitetos... — A voz sai gutural, testando as cordas novas. — Terminem o serviço. Temos uma caçada pra finalizar.

Os tomates vão esfriar.

Cleo vai entender.

Ela sempre entende.

[ FIM DA AMOSTRA GRÁTIS ]
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